Recado explícito do Copom surpreende mercado, que se divide sobre primeiro corte
O Comitê de Política Monetária manteve a taxa básica em 15% ao ano pela quinta reunião seguida, mas já avisou de forma clara e direta, surpreendendo o mercado, que vai começar os cortes em março, com cautela.
Segundo o comunicado da decisão, o Comitê “antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião”, enfatizando, porém, que “manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
Os comentários indicam que os cortes começarão de forma gradual, e não em ritmo acelerado como parte do mercado projetava. Nessa linha, o comunicado diz que “o compromisso com a meta (de inflação) impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”. Assim, a discussão no mercado agora será o que o BC considera gradual, 0,25 ponto ou 0,50 ponto porcentual em março.
Veja, a seguir, alguns dos principais pontos, na avaliação de especialistas, sobre a decisão mais recente do Copom.
Revisão para baixo
O aviso do corte foi tratado com muita cautela e termos como calibragem e serenidade sugerem que o ciclo se iniciará ao ritmo de 0,25 ponto porcentual na reunião de março, afirma Étore Sanchez, analista da Ativa Investimentos. Ele ressalta ainda que a mediana do mercado no Boletim Focus apontava para um afrouxamento de 0,50 ponto porcentual na próxima reunião.
Por conta disso, Sanchez revisou a perspectiva para o primeiro corte, de 0,50 ponto para 0,25 ponto em março, o que fará com que 2026 termine com a Selic em 11,50%, estimando que os novos cortes a partir de abril sejam de 0,50 ponto.
Cautela continua
A redação do comunicado permaneceu cautelosa, reforçando que a inflação e as expectativas de inflação seguem acima da meta, ao mesmo tempo em que a atividade econômica desacelera gradualmente em um contexto de mercado de trabalho resiliente, observa Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos. “De fato, o Comitê destacou que ‘manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta’”, destaca.
Megale ressalta que as projeções de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante para a política monetária, permaneceram em 3,2% e o Boletim Focus, usado como referência pelo BC em suas projeções, já estimava um corte de 0,50 ponto do juro em março.
Além disso, o dólar usado nas projeções foi de R$ 5,35, enquanto a cotação atual está em R$ 5,25, o que levaria a projeção da inflação para 3,0%, ou dentro da meta. “Em outras palavras, iniciar cortes de juros em março é compatível com o cumprimento da meta de inflação no horizonte relevante”, conclui Megale. Ele espera, cinco cortes de 0,50 pontos a partir de março, levando a taxa para 12,50%, ou 8% em termos reais, “refletindo os desafios fiscais esperados para o próximo mandato presidencial”.
Equilíbrio de forças
O Banco Central reconhece a desaceleração da atividade e o arrefecimento gradual da inflação, mas segue incomodado com a desancoragem das expectativas e com a resiliência da inflação de serviços, especialmente em um mercado de trabalho ainda apertado, afirma Raphael Vieira, co-head de Investimentos da Arton Advisors.
O discurso permanece conservador, refletindo tanto incertezas externas — com destaque para a política econômica dos EUA e o cenário geopolítico — quanto riscos domésticos ligados à política fiscal e ao câmbio. “Na prática, o Copom tenta equilibrar duas forças: de um lado, há espaço técnico para começar a cortar juros; de outro, falta confiança para acelerar esse movimento sem comprometer a credibilidade do regime de metas”, diz.
Para Vieira, o recado central é que o ciclo de queda, quando começar, tende a ser gradual, condicionado e altamente dependente dos dados, especialmente da dinâmica de serviços, expectativas e do comportamento fiscal. “Não há espaço para cortes agressivos, tampouco para repetir ciclos de afrouxamento prematuros do passado”, acrescenta.
Olho na inflação, emprego e atividade
O Banco Central surpreendeu em já indicar o início do ciclo de corte de juros para a próxima reunião, contudo, com tom ainda altamente cauteloso, afirma Leonardo Costa, economista do ASA. Ele projeta um primeiro corte de 0,25 ponto porcentual em março, com risco, ainda que menor de um movimento mais intenso, de 0,50 ponto. “Os dados de inflação, mercado de trabalho, além dos demais dados da atividade doméstica, serão relevantes para definir o ritmo de cortes para março”, afirma. Para o fim de 2026, Costa estima Selic em 12,5%, compatível com o tom cauteloso que tem marcado os comunicados recentes do Copom.
Espaço para 0,50 em março
O comunicado foi um pouco mais dovish (suave) ao indicar explicitamente que, sob o cenário-base, o Copom antevê um corte já na próxima reunião, afirma Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos. Para ela, permanece uma divisão em relação ao ritmo de cortes, entre 0,25 ponto e 0,50 ponto.
Mas Natalie acredita que a apreciação do câmbio e a perspectiva de dados um pouco mais fracos referentes à atividade em dezembro tendem a fortalecer a hipótese de um corte de 0,50 ponto, enquanto a possibilidade de 0,75 ponto porcentual também passa a ganhar alguma probabilidade. “No conjunto, mantemos nossa projeção de um corte de 0,50 ponto porcentual em março e de taxa terminal em 13% em 2026”, estima.
Aviso explícito
O ponto mais importante da reunião do Copom foi a comunicação explícita de que ele vai começar um processo de afrouxamento monetário na reunião de março, afirma Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV. “Sem alterar suas projeções ou o balanço de riscos, o Copom sugere também cautela tanto em relação ao ritmo de corte quanto ao tamanho do ciclo, e essa informação é compatível com o cenário que ele começa o processo de flexibilização da política monetária num ritmo de 0,25 ponto e alcança no fim do ano o patamar de 12%”, diz.
Restrição continua
A antecipação do corte de juros em março foi o a parte mais surpreendente do comunicado, afirma José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos. “Ele superou minha expectativa inicial de que o sinal para o início dos cortes não seria tão explícito”, diz. Segundo ele, a mudança no tom sugere que o Banco Central adquiriu maior confiança na efetividade da política monetária e na trajetória de redução da taxa neste momento.
Mas Camargo observa que o Copom ponderou essa postura mais otimista ao destacar que o mercado de trabalho permanece aquecido, o que gera preocupações sobre possíveis pressões inflacionárias futuras, além do fato de as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuarem desancoradas. “O cenário desenhado pelo Banco Central indica que a política monetária continuará restritiva para garantir a convergência das metas, porém em um patamar menos severo do que o observado nos últimos meses”, diz.
Riscos no radar
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, estima cortes de 2,50 pontos porcentuais no ano, com a Selic terminando 2026 em 12,5%. A redução nos juros poderá ser maior caso haja uma redução da inflação maior que o esperado seguida da convergência das expectativas para o centro da meta. Já o risco fiscal deve permanecer no radar, com potencial aumento da demanda, resultado das medidas de aumento de gastos, incluindo a isenção de IR em 2026 e expansão no crédito direcionado. “Além disso, a atual trajetória favorável do câmbio pode ser revertida caso haja um aumento na percepção de risco resultando em um menor espaço para redução do aperto monetário por parte do Copom”, alerta.
Bom para renda fixa
Na próxima reunião o Copom deve começar os cortes da Selic com 0,5 ponto porcentual, seguidos de mais cinco cortes consecutivos, que devem levara taxa para 12,5% no fim do ano, estima Antonio Sanches, analista de Research da Rico Investimento. “Os juros vão continuar em um patamar elevado, o que acaba sendo desfavorável para quem está endividado, mas ainda bastante atrativo para quem investe em renda fixa, especialmente em títulos pós-fixados como o Tesouro Selic e investimentos semelhantes”, diz.
Indústria cobra corte
Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) disse em nota que “recebeu com enorme preocupação a decisão de manter os juros, afirmando que a cautela defendida pelo BC “ignora a queda da inflação e os danos que o atual patamar da Selic causam à sociedade. Segundo Ricardo Alban, presidente da CNI, “o Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de redução dos juros há muito tempo”, acrescentando que “ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia, aprofundando a desaceleração do crescimento”. Para Montalban, “é indispensável que a flexibilização da política monetária comece já na próxima reunião”.
